Sobre sexualidade (e a falta dela). Porque é Mês do Orgulho LGBTQIA+, e eu sou dessas

    Se você é um pequeno ninja com presença frequente nas luas deste blog ou se você me conhece na vida real (normalmente o segundo caso leva ao acontecimento do primeiro), você provavelmente sabe que atração é um tópico que costumava ser difícil para mim.

    Eu não lembro de muita coisa desta minha vida curta, mas eu lembro que na creche já tinham as menininhas e os menininhos que se gostavam. Aconteciam aqueles namoros de crianças de seis anos, de pegar na mão e dar beijo na bochecha e dançar junto na festa junina. Eu lembro que muitas das minhas amigas gostavam de um mesmo garoto, acho que o nome dele era Tiago; entre todos os garotos, ele era o menos babaca (eu tenho lembranças muito claras de que ele gostava muito de formigas, não que isso seja importante). Eu lembro de me perguntar se eu também gostava dele desse jeito, já que minhas amigas achavam ele tão bom partido; lembro também de descartar o pensamento bem rápido.

    Essa coisa do "será que..." aconteceu mais algumas vezes comigo, com meninas e com meninos e outros, com amigos e conhecidos. Tiveram pessoas que fizeram o questionamento por mim, pessoas que tiveram conclusões que nunca passaram pela minha cabeça sobre meus sentimentos, pessoas que se declararam para mim.

    É fácil cair na onda do "será que...". Quando se está perto da ou na própria adolescência, há sempre pessoas namorando, se pegando, tendo crushes; se você não está fazendo o mesmo, você não se encaixa em certas conversas ou certos grupos e, portanto, você começa a se perguntar o que tem de errado ou tenta se encaixar de algum jeito. Então você observa o que dizem seus amigos, os livros, os filmes, as novelas e as séries, e tenta comparar todos esses padrões que se aplicam à atração com o que você já sentiu por toda e qualquer pessoa na sua vida.

    Os amigos próximos são assuntos comuns nos "será que..." porque o sentimento é claramente amor, ainda que não romântico. Uma mente desesperada para se entender tenta procurar sinais em tudo e, com bastante força de vontade, pode até achar pelo em ovo. Sim, este é meu jeito de dizer que eu com certeza considerei mais de uma vez estar atraída por alguns dos meus amigos, tentando me enganar. Hoje, é muito fácil perceber que eu estava só me iludindo para tentar me encaixar em um molde.

    Tiveram algumas vezes que certos colegas deixaram a entender que eles achavam que eu gostava de alguém, tiveram vezes que eles falaram que era óbvio que eu estava "gostando" de alguém, aconteceram alguns "Ah, mas elx gosta de você! Por que você não tenta?" e, pelas luas de Júpiter, esses são os piores "será que..." que existem para mim, porque eu não estava mais questionando o que eu sentia, mas sim o que os outros achavam que eu sentia. Até agora, nenhum "será que..." superou o quão agoniante é "será que eles estão certos?"

...

Alerta de spoiler: eles não estavam certos.

    Veja só, não é como se eu fosse desinformada. Eu tinha todas as informações que eu precisava e já tinha dado tempo para alguns pensamentos acharem moradia na minha mente. 

    Logo, quando numa festa uma garota perguntou se eu era hétero (e se ela poderia me beijar se eu não fosse) e eu respondi "desculpa, mas eu sou assexual", foi um momento bem eureka perceber que eu não estava mentindo. Ela era bonita e gente boa, então eu não via nenhum problema em beijar ela, mas eu não queria beijar ela, da mesmas forma que eu nunca realmente quis beijar ninguém.

    Não me leve a mal, eu não me oponho ao ato de beijar. Nunca beijei, mas não parece algo ruim, nem tão nojento quanto parecia há alguns anos. Eu não beijaria um estranho ou uma pessoa com quem eu não sou familiar porque para mim beijos são demonstrações de afeto mais íntimas, mas não julgo quem faz. Se algum dia eu quiser beijar alguém, provavelmente será apenas para ter a experiência e, neste caso, acho que eu perguntaria aos meus amigos se algum deles estaria disposto a me fazer esse favor.

    (Uma vez eu expliquei isso para um amigo meu e ele disse que conseguia muito imaginar eu beijando alguém e depois anotando sobre isso como se fosse um experimento científico, e eu não consigo dizer nada para contradizer ele até hoje).

    Esse raciocínio sobre beijar vale para qualquer coisa que as pessoas normalmente fazem quando elas sentem atração sexual por alguém: não parece ruim, mas eu particularmente não sinto vontade de fazer com ninguém, porque eu não sinto esse tipo de atração por ninguém.

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    Sinceramente, é meio constrangedor ter demorado tanto tempo para eu perceber que eu não sentia atração sexual ou romântica por ninguém. (Sim, eu sei que anteriormente eu não citei ser arromântica, mas perceber isso não teve nenhum momento eureka como o da história que eu contei no último bloco e ainda se encaixa no "constrangedor não ter percebido antes").

    Depois do meu momento eureka na festa, eu entrei no meu estágio de negação. Eu passei meses pesquisando sobre o espectro assexual e arromântico e escrevendo textos enormes no meu diário analisando meus sentimentos por toda a minha vida para chegar em uma conclusão. Nada é tão impactante quanto analisar suas memórias e pensar repetidamente "como eu nunca percebi isso antes?!". Um puta balde d'água fria na cabeça, sinceramente...

   Vou dizer uma outra coisa que facilitou muito para mim: foi muito bizarro perceber que as pessoas tinham crushes naturalmente. 
    
    Olhar para uma pessoa e ter um crush, ou conversar uma vez e ter um crush? Bi-zar-ro. 

    Perceber que ninguém fazia uma categorização de prós e contras sobre as pessoas que conheciam para decidir como responder a pergunta "de quem você gosta?" foi crucial para admitir que eu nunca senti atração por ninguém na minha vida. 

    (Eu ouvi dizer que fabricar crushes socialmente convencionais é uma experiência comum entre as pessoas da comunidade LGBTQIA+ que estão no fim de espectros, como gays, lésbicas, assexuais e arromânticos. É muito doido o que a gente faz subconscientemente para se encaixar nas normas sociais, né?).

    Posso dizer que a parte mais engraçada do período de negação é que só duas pessoas sabiam que eu estava me questionando: eu e minha irmã. Todos os meus amigos provavelmente pensavam que eu tinha muita certeza sobre a minha falta de atração pelos outros. 

    Eu tinha muito medo de admitir para mim mesma que eu não sinto nada de sexual ou romântico pelas pessoas, porque eu tenho um sério problema com coisas concretas (lembra de quando eu falei em outra postagem sobre fins de ciclo e sobre como eu não aceito muito bem finais? É um pouco sobre isso). Eu não queria dizer para mim mesma que eu não consigo sentir algo porque vai que um dia eu sinto? E se eu sentir atração por alguém no futuro, mesmo que brevemente, mas descartar porque eu me coloquei em uma caixinha e não consigo sair dela? E se eu mudar de ideia e ter que passar por outra sessão de autodescoberta? E se for só uma fase?

    Por isso, pequeno ninja, eu tive que passar por um bocado de meditações filosóficas sobre minha sexualidade e sobre como eu não preciso de permissão externa para mudar de ideia sobre mim mesma. E se for uma fase? A lua passa por várias fases mas não deixa de ser a lua, e cada fase é um estado intrínseco dela e não deixa de ser real só porque é temporário. É quase impossível haver um estado concreto do ser, e aceitar isso também foi muito importante.

    Ironicamente, perceber que minha sexualidade podia ser uma fase foi essencial para perceber que ela não é só uma fase (?). Pensar "eu sou aroace até que a vida me prove o contrário" foi bem importante para perceber que mesmo se a vida me provasse o contrário minha experiência como aroace ainda seria válida, porque ainda seria uma parte da minha vida e da minha identidade que me moldou como pessoa e afetou as minhas experiências, por mais temporária que seja. 

    (Isso também vale para diversos outros aspectos da vida, galerinha: não diminuam a importância de momentos da vida ou pedaços da identidade de vocês só porque eles foram temporários. "O desabrochar das flores é efêmero, mas afeta totalmente como o jardim é visto" e essas coisas...).

    Então... é, foi assim que eu me descobri arromântica e assexual!  Feliz mês do Orgulho LGBTQIA+!

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Esse foi o Ser Pensante, direto das Luas Aleatórias!

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